Meu amigo Thales me disse em 1988: “é bom, é jovem, é Bon Jovi”.
Pois John Francis Bongiovi Jr., 47, está de volta e para um pai de quatro filhos, looking fucking good.
Daqui a quase exatamente um ano, dia 7 de novembro, ele estará no Brasil e você vai poder conferir ao vivo. Se for fã mesmo, pode pegar o show na abertura em Seattle, fevereiro, ou em algum outro canto do mundo – aqui está o roteiro da tour. Bon Jovi na Croácia, que tal?
Eu também estaria rebolando feliz se tivesse vendido 120 milhões de álbuns. Talvez sem a mesma ginga, claro. Olha ele vendendo o peixe aqui, a primeira faixa do novo disco, na versão inglesa do Ídolos:
We Weren’t Born To Follow é mais um daqueles hinos genéricos, tronitruantes, assobiáveis, all-american que ninguém faz melhor que o Bon Jovi.
Umas eles acertam na mosca – Wanted Dead or Alive, Living on a Prayer, It’s My Life. Outras, e essa nova é um desses casos, não.
Mas é indolor, e tem um monte de heróis americanos, ou pelo menos heróis para um garoto italiano, durango e Democrata de Nova Jersey – Martin Luther King, Al Gore, Bobby Kennedy, astronautas e a princesa Diana. Como, claro, Obama, que Jon apoiou. Olha ele cantando na festa de posse do presidente americano:
No universo do Bon Jovi, ser um cara comum é ser a melhor coisa do mundo, o sal da terra, o herói, o protagonista. A banda vende melhor que ninguém o sonho americano: a vida é difícil, mas qualquer americano pode conseguir realizar muita coisa.
Basta trabalhar duro, ser justo e leal com seus amigos. O que é verdade, naturalmente; e a prova indiscutível é o próprio Jon saracoteando sorridente no palco na sua frente, não está vendo?
É um ideário que seria country e republicano se não fosse suburbano e liberal. A operação conceitual é interessantíssima. O Bon Jovi existe em um ponto imaginário equidistante de Los Angeles, Memphis e New Jersey.
Entre, sei lá, Poison, Elvis e Bruce Springsteen. Nunca fui exatamente fã de Bon Jovi, mas sempre simpatizei e cada vez mais. Piracicabano que vira paulistano tem dessas coisas.
Quando entrei na Folha, 88, era cabeludo e tinha gente que achava que eu era headbanger.
Vai ver não diferenciavam minhas camisetas do Joy Division e Dead Kennedys de camisetas do Iron Maiden.
Minha primeira capa da Ilustrada foi sobre, adivinha, a então mais recente dentição metaleira, o hard rock de laquê e batom de gente como Motley Crue, Guns N’Roses e… Bon Jovi.
Adoraria ler de novo. Alguém sabe onde encontro? Todos esses caras viraram covers deles mesmos. Jon virou outra coisa. Elvis é a referência mais na cara. Não imitação; isso, ninguém fez melhor que Eddie Murphy.
Claro que a vida do comportado Jon não tem nada a ver com o doidão Elvis. Aliás, Jon já viveu hoje quatro anos mais que Elvis. Mas ninguém há de negar que mesmo sendo um garoto de cidade, Jon engana bem de cowboy do asfalto.
E não é de hoje. Olha ele em 1985, mandando ao vivo do lado de Willie Nelson, em uma cover de, opa, Elvis:
Bon Jovi, como Presley, domina a arte de ser famosíssimo e manter aquele equilíbrio entre ser inatingível e acessível, queridíssimo entre as mulheres e “one of the guys” para os homens.
O som? É hard rock superproduzido; é caipira de coração; é o hino que embala sonhos, desilusões e festerê do povão. É, mais ou menos, Victor & Leo.
Parte importante da lenda que suporta o Bon Jovi é a da gangue de amigos inseparáveis e superleais, Jon à frente, Richie Sambora como seu fiel escudeiro.
Sejam quais forem os bastidores desta relação, a parada funciona; o Bon Jovi faz shows emocionantes e lota estádios nos cinco continentes, em maratonas só comparáveis às dos Stones e U2, mas mais íntimas e espontâneas.
Como, digamos… Bruce Springsteen, de novo.
Para completar, Jon tem um legendário “casamento perfeito” e discreto, com sua namorada de colegial, Dorothea. Bonitona ela, mas sem visual de superstar.

Jon é tão perfeito que parece de mentira. É mentira mesmo, mas deve ter seu fundo de verdade, porque nunca pegaram ele de calça curta. Minha teoria: disciplina e tino comercial.
Jon é filho de dois ex-Marines, fuzileiros navais americanos. Ele, John, ela Carol, ex-coelhinha da Playboy. Das que serviam mesas no Club Playboy no final dos anos 50, não das que saíram peladas na revista.
Infância linha dura, pouca grana mas sem miséria. Jon era bonitinho, moleque.
Se fez bonitão: plásticas, musculação, jaquetas nos dentes, tratamentos diversos – é só olhar a pele dele com 23 anos e hoje. Sua beleza veio exatamente de onde vêm os visuais de estrelas de cinema, e não é da barriga da mamãe, ainda que DNA ajude bem.
Jon cresceu querendo ser um rockstar, e foi rápido. Depois queria ser um menestrel respeitável, como Bruce Springsteen, e não foi. Agora parece que está mais confortável. É facílimo prever os próximos anos do Bon Jovi.
Mais discos iguais aos de sempre, mais turnês lotadas, mais sucesso, mais dinheiro e nenhum escândalo à vista. Ele sabe que a vida é dele. E seu herói hoje toca para ele:
Pode estar fora de moda gostar de Springsteen e Bon Jovi. Bem, tenho quase a idade de Jon, e não estou dando a mínima para o que está na moda. O tempo passa para o bem e o mal.
Mesmo que a gente pareça jovem, se sinta jovem e não queira se entregar à nostalgia, é difícil não pensar às vezes no que foi e não volta mais.
Com melancolia, mas – espero – também com carinho e humor. Assim:
Now I think I’m going down to the well tonight and I’m going to drink till I get my fill
And I hope when I get old I don’t sit around thinking about it but I probably will
Yeah, just sitting back trying to recapture a little of the glory of,
Well time slips away and leaves you with nothing mister but boring stories of
Glory days well they’ll pass you by
Glory days in the wink of a young girl’s eye Glory days, glory days
Hei, Thales, olha os dois juntos aqui, man!
(Fonte: blog do André Forastieri)